Olhei para meu prato com aqueles pedaços gordurentos, ainda me divertindo com a rebeldia de um cara de 40 anos que era apaixonado por música e por um baixo, bom marido, futuro pai.
-E o futebol? - provoquei, revirando aqueles pedaços no vinagrete - também é matrix, consagrado no país. E vivo lendo colunistas e cronistas que fazem aquela intertextualidade com a vida, "futebol é mais que arte, é mais que esporte". Tenho que reconhecer mas...Porque eu não gostaria de salto ornamental, por que é diferente?
-Eu adoro futebol - respondeu com o olhar meio distante, que nem a voz.
E todos da mesa concordaram, reconhecimento da minha incapacidade à parte, que entretenimento é importante, e que poderia, sim, ter sido salto ornamental a paixão nacional.
No fundo não importa se a escova é música ou esporte. O que importa mais agora, para mim, é saber se apóio essa iniciativa, até que ponto isso é importante para o Brasil.
Dizem os comentaristas que os atletas representam o país, seja em rasteiras e lutas em baixo centro de gravidade, seja em uma graciosa partida aparentemente amistosa de hóquei de grama, ou em um leve e equilibrado show de ginástica olímipica. Na trave, no solo...
Alguns povoados no Rio perderam as casas e o direito de morar,
utilizaram o triplo de grana que seria necessário
fora as falhas de sempre...
e eu fico imaginando porque participar dessa guerra silenciosa.
Toda competição é violenta, e nisso dou alguma razão ao meu camarada da fala escrita acima; para que vou torcer para alguém que treina 8 horas por dia para competições? Isso irá ajudar o país? Ah, auto-estima coletiva? Aí vem aquela conversa esquizofrência já conversada, e chegamos à conclusão de que temos de jogar o jogo do mundo.
Temos mesmo?!
Ainda não consegui me convencer de algo,
e enquanto me questiono em relação ao Brasil e ao mundo (porque eu sou brasileira, querendo ou não. Mesmo sendo contra nacionalidades, elas existem: serei conformista ou inutilmente revoltada?), me emociono com as propagandas de atletas
assisto os jogos de basquete
acompanho o judô.
Sempre odiando a violência, odiando a guerra biológica, genética
e lutando contra minha consciência
sendo vencida por alguma paciência inexistente,
O maior fantasma que já me atormentou.

[poderia ter colocado uma foto tradicional, mas essa é para lembrar o ridículo de qualquer cobertura de evento: achei essa foto do Flávio Canto na seção "musos do pan", no site terra. Mais um herói]
Notícias da Cidade de Fogo
Se vou bem?
pergunte a meus irmãos que agora têm sonhos vermelhos.
poderia responder por mim própria
me desvencilhando
mas não seria muito humano estar bem, feliz
combinar uma saída no celular do outro lado da cidade.
mas às vezes penso o contrário:
que me sentir bem
que ignorar
seria completamente, intrinsicamente humano.
então
me desespero,
choro um pouco
e atendo o celular.
só que não vou dizer que estou bem, não, não vou. mesmo que seja tão natural
[it's only natural]
vai pro inferno
mas deixe essa cidade fora dele.




