segunda-feira, 13 de agosto de 2007

Sem nenhuma importância II

-Você vai lá sábado?
-Ah, vou sim. Eu estou querendo experimentar uns cafés diferentes agora, sabe, aqueles com aromas...

Não. As duas feanas* conversando não me interessam, não naquele momento. Meus ouvidos captam sem muita vontade aquele papo desinteressante, mas meus olhos estão atentos para algo mais sutil (ou tão escabroso que todos fingem que ninguém vê, e torna-se sutil desta maneira. Vamos fingir que é normal, estamos nesse lugar estranho afinal).

(Nome do clube)
Para sua segurança:
-Mantenha sempre seus pertences no armário com cadeado;
-Nunca deixe objetos pessoais sobre a bancada;
-Em caso de presença de pessoas estranhas, favor informar à direção.

Oi, com licença. Eu estava no vestiário quatro, aliás, sempre estou. Mas lá é cheio de pessoas estranhas, achei melhor comunicar-lhes. Tem umas mulheres muito peitudas que jogam vôlei e sempre ficam marcando churrasco, isso caracterizadas como vieram ao mundo. Ok, tudo bem. Mas o que dizer das meninas que entram depois de mim, saem antes, e de cabelo molhado? Isso é muito estranho só pode haver algo errado, não é possível. Eu não demoro muito, e juro por deus, elas saem arrumadas, de salto e brincos. Isso sem tocar na questão das que se trocam em cima das bancadas, no alto mesmo, como se desfilassem. É gracioso, eu sei, mas vocês pediram pra avisar sobre movimentações estranhas, e eu não faço essas coisas. Eu não seco o cabelo naquele lugar, se é que vocês me entendem.

Estou forçando, claro. Dessa maneira meia dúzia poderia reclamar dos meus rituais pós-treinos, eu não sou exceção, ninguém é igual.

Mas aquele dia meus olhos foram sugados para outra dimensão
eu estava me arrumando então
subitamente
aquela mulher me chamou a atenção.

Não são os muitos minutos gastos na frente do espelho grande apertando a gordura da barriga, deformada pela quantidade de tecido adiposo (deve ser por isso que usa blusas de moletom largas). Ela tem uma cor bonita, bem escura, e os cabelos são lisos e negros, bem escorridos... é uma mulher bonita.

Não são, novamente, os milhões de sacolas que ocupam, juro, metade da bancada central - não se tratam de malas ou mochilas, mas sim de dezenas de sacolas de supermercados diversos. Nem o fato de ter tirado um ralador de uma de muitas, e de outra uma cenoura e ter se posto a descascar aquela raiz no lixinho do banheiro.
E depois comido, acuada, com o umbigo à mostra.

Ela estava lá, de top, comendo sua cenoura. Eu já não ouvia mais nada de interessante, eu a lia, somente. Porque tanta vagareza? Não tinha sido a primeira vez que a vira, ela sempre estava com as suas sacolas espalhadas, e sempre com alguma fruta na mão, mas era sempre muito devagar, como se quisesse matar o tempo.

Foi isso. Que nem Ludvik e Lucy, ela bem devagar, tanto que o fez parar, o fez pensar e
Não.
É mais que isso. Sempre sinto pena dela, penso se alguém a está esperando, se ela é que espera alguém, se ela não tem nada pra fazer. Deve ser por isso que eu não paro: de certa maneira eu acho meio deprimente. Ou pena por simplesmente alguém a fazer esperar tanto tempo.
E ela tem de ficar com suas sacolas
E cenouras
Durante muito tempo mesmo.

sexta-feira, 10 de agosto de 2007

Sem nenhuma importância

Sexta feira
Algum lugar da Cidade Universitária

Geralmente sento mais na frente nos ônibus da vida, mas hoje, exepcionalmente resolvi sentar atrás, em um dos últimos cinco lugares - que eram mais altos do que os anteriores, por se tratar de um veículo com o meio rebaixado (esse detalhe é bem inteligível para a maioria dos leitores do meu blog, acredito). Na cadeira da frente tinha um homenzarrão/ um viking alto e loiro, de pele queimada. Não o achei bonito, não o achei feio, não sei se xingava a mãe, se fazia filantropia. Só lembro da mecânica do movimento que repetiu durante os metros em que convivi com ele/ tirava do bolso, enrolava com o indicador e o polegar e atirava as bolinhas formadas em dois garotos que estavam mais pra frente, na fileira oposta.
Inicialmente pensei que se tratava de um retardado, talvez tenha olhado até com alguma compaixão para o pobre diabo. Mas quando, em um certo ponto, subiu um sujeito e se pôs a prosear com o nosso protagonista, meu novo julgamento passeou entre serelepe e revoltado, infantil e vingativo.
E depois pensei que aquele cara de meia idade, jogando papéisinhos x em moleques, fazia tanto sentido quanto eu estar onde estava, dirigindo-me para onde me dirigia.

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Ao escrever sobre o amigo crianção/frustrado, impossivel nao imaginá-lo (mesmo na hora em que o vi) personagem de fábula, de algum conto europeu - daqueles que eu lia quando criança. Sempre tinha a menina de cabelos cor-de-cerveja e lábios botão-de-rosa, o velhinho maldizente que lançava pragas aleatórias, e vez por outra, um homem (quase sempre jovem) forte ou medroso ou vaidoso ou egocêntrico ou valoroso ou fanfarrão ou preguiçoso ou idiota. Idiota.
Esse não foi o único personagem errante que encontrei esses dias.
Acreditem ou nao, ontem, entrando no metrô, cruzei com um velho marujo tentado, ridiculamente, se disfarcar em roupas contemporâneas.
Aquele olhar azul torto inconfundível, de quem passou a maior parte de seus anos enrugando a testa por causa do sol, a toca curta mal posta na cabeca - um vício antigo que nao faz nenhum sentido nessa cidade-, o cachimbo pendente da abertura seca da cabeca (esse, assim como os outros, não tinha belos labios carnudos. nem faria sentido se os tivesse) se formando, ganhando cor, vida naquele corpo salgado.
Não, não era um simples mendigo. Era um velho lobo do mar que se aposentou e tentou viver como o resto do formigueiro.
É claro que nao conseguiu.



*

quarta-feira, 8 de agosto de 2007

Sem importância

liberdade é não se importar de levar na cara uma rajada de vento que vem da superfície de um rio poluído

perplexidade é pensar como a água de um lago artificial fica parada ao invés de se infiltar e vazar mundo afora

simplicidade é se impressionar com um pôr-do-sol horroroso, se pondo no cinza

alívio é ver outrem tropeçando pateticamente na entrada da livraria, exatamente como você fez minutos antes

depressão é ouvir Radiohead antes de dormir
ou ainda: sucumbir a uma poesia engraçadinha

medo é não ter certeza se andares de prédios não tem pretensão de formar sanduíches

liberdade é usar sandálias para caminhar.

domingo, 5 de agosto de 2007

Sem Sentido II









Sem título

nada
nada
nada.
não há vontade de fazer poesia
não há vontade de escrever com caneta ou com teclas
de um jeito odioso de cansado-velho
de quem fez pouco e acha muito.

a verdade é uma estrada
e a liberdade são escolhas de algemas.
a estrada é feita de feira, e você vai escolhendo os grilhões: eu quero esse, esse...
rosa peludo? clássico, mas quem sabe essa versão de silicone tecnológico que solta cheiro de ipê,
seria uma boa.
felicidade é uma escolha.
não é algo que é, que vêm,
é algo que você diz sim, agora, e se obriga.
é algo que você escolhe quando escolhe não pensar também,
é algo de procrastinação
de escolhas de agora que no futuro (que nem um outdoor de terceira categoria)
vão mudar sua vida.

me pergunto por que fazer isso agora,
por que ter certeza de algo depois,
se não dá mesmo pra viver do jeito que vai dando na cabeça
por que precisa ser planejado.
e me sinto defasada por não ter feito planos,
por não escolher cadeias, mas sim tomá-las emprestadas,
desfilando com pulseiras azuis em um domingo de sol,
despretensiosamente.

eu não sei o que eu quero
ou se é só preguiça,
perseguir um cheiro forte ao invés de ficar por aqui
tropeçar em um corpo caído
e se apaixonar por toda aquela simplicidade.
o mundo gira tanto que me deixa tonta,
me dá ânsia.

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e-mail de um amigo para a Detran:

"Venho por meio deste demonstrar meu desagrado com o regimento interno do Detran-SP. Fui impedido de realizar prova teórica no orgão por não estar vestindo calças, e sim bermuda. Tendo em vista que vestimentas refletem o gosto ou a cultura de um indíviduo, coloco que este impedimendo caracteriza-se como um preconceito socio-cultural. Enquanto as roupas cobrem o corpo o suficiente para não constranger aqueles próximos, cumprem seu papel. Restringir seu uso, além do caráter preconceituoso, leva à exclusão daqueles que não podem adquiri-las por motivos financeiros. Gostaria também de salientar que este tipo de posição perpetua costumes arcaicos, que há muito deviam ser abandonados pelos órgãos públicos brasileiros, muitos deles característicos de tempos nos quais a democracia e o respeito à pluralidade não eram valores sociais."

[Da primeira vez que li, eu ri, achei muito divertido.
Depois, pensei se seria melhor chorar por ver um exemplo tão bonito de fé, enquanto eu me revoltaria e, em vez de fazer algo, aumentaria o rancor contra o país que não deu certo.]


[esse post é tão sem sentido quanto essa foto. Tudo que há nela, tudo que diz respeito a ela. Com o perdão do amigo, e da imagem]

sexta-feira, 27 de julho de 2007

Corpo-Sem-Alma


Havia uma viúva com um filho chamado Joanorzim. Quando tinha treze anos ele teve vontade de sair pelo mundo e fazer fortuna: a mãe disse que só quando ele conseguisse derrubar com um pontapé um pinheiro que ficava no quintal deles.
Dito e feito, todos os dias depois de acordar, Joanorzim tentava um pontapé, e como o menino era muito valente o feito não tardou a acontecer: um dia o menino derrubou o tal pinheiro e pediu a benção da mãe.
Lá se foi Joanorzim pelas estradas da vida, até que chegou em um reino cujo rei possuía um cavalo que ninguém conseguia montar. Observando as trapalhadas tentativas dos empregados reais, o esperto garoto entendeu que o bicho era assim porque tinha medo da própria sombra. Não demorou até o dia em que, sorrateiramente nosso herói chegou ao estábulo e, como-quem-nada-quer, pulou no lombo do mal-compreendido – que se chamava Rondó -, logo conduzindo-o para fora do recinto, mas com a cabeça contra o sol. Dessa maneira, Rondó não via sua sombra, e ambos cavalgaram felizes para surpresa do rei e dos empregados. O mancebo ganhou fama e o carinho real, mas não tardou a pisar na bola – como não poderia deixar de ser -, contando vantagem conforme o ego subia-lhe à cabeça. No caso, o alvo da língua grande era a filha aprisionada do rei: Joanorzim dizia por que dizia que iria libertá-la. Acontece que o boato chegou aos ouvidos do pai da donzela, que ameaçou de morte nosso herói, se ele se recusasse a salvar a querida filha.
Lá se foi Joanorzim para as aventuras mais memoráveis de sua jornada. No meio do caminho se deparou com uma cena no mínimo bizarra, que consistia em quatro animais (um leão, um cachorro, uma águia e uma formiga) velando o cadáver de um burro. Ao se aproximar, veio o leão tentar um diálogo:
-Joanorzim (sim, ele sabia o nome do nosso herói), você que possui uma espada, seja justo e divida esse corpo entre mim e meus companheiros.
Dito e feito: o mancebo deu a cabeça para a formiga (“assim você poderá usá-la como casa, e encontrará comida para toda sua família”), as patas para o cachorro (“poderá roê-las até se cansar”), as tripas para a águia (“essa parte é facilmente transportável até o cume das montanhas”), e o resto do lombo ficou com o leão, que comia mais que os outros.
Vendo a sabedoria do jovem, cada animal recompensou-o de alguma forma:
-Tome uma de minhas garras, começou o leão, quando usá-la se tornará o leão mais feroz do mundo.
-Fique com um de meus bigodes para que possa ser o cão mais veloz que existe.
-Já da minha parte dou-lhe uma pena: dessa maneira, ao usá-la será a maior e mais forte águia a voar pelos céus;
-Fique com uma de minhas patinhas, Joanorzim, elas lhe possibilitarão transformar-se na mais pequenina formiga, impossível de ser vista até mesmo com o auxílio de uma lente de aumento.

Feliz e premiado com os novos utensílios, o jovem seguia confiante para seu objetivo-sem-nome. Atravessou bosques, lagos, pontes, mais bosques até avistar um castelo. Era o castelo do mago Corpo-Sem-Alma. Joanorzim se transformou em águia e voou até o peitoril de uma janela que estava fechada. Transformou-se em formiga e penetrou no aposento através de uma fresta. Era um quarto bonito, e no (sempre) centro do quarto dormia a bela princesa em um baldaquim. Sempre formiga, passeou nas bochechas dela, até que a moça despertou, e se viu ao lado de um belo rapaz ex-formigo:
-Não tenha medo, bela, vim salvá-la!
Dito isso entra no quarto o mago Corpo-Sem-Alma para se afogar nas graças da moça. Fazendo cafuné no velho decrépito, que estava com a cabeça sobre o colo macio dela, a moça lamenta a sorte do guardião Oh temo pela sua sorte, se descobrem seu segredo; Ah minha princesa, olhe para você ver: só conseguem me matar se adentrarem a bosque do quintal, matarem o leão negro que lá habita. E não só isso, bela, teriam de vencer ainda o veloz cão que existe dentro do leão, e posteriormente, a águia que existe dentro do cão. E (só de sacanagem) teriam de quebrar na minha testa o ovo que sairia da águia. É impossível! Somente desta maneira minha alma retornaria a meu corpo, matando-me. Ficou mais tranqüila agora?
Joanorzim, a ouvir daquelas palavras não perdeu tempo, se dirigindo ao bosque, rapidamente encontrou o leão negro. Por sua vez, utilizou a garra para transformar-se no mais forte leão do mundo: rasgou o felino do mago. Como em profecia, da barriga aberta saltou um cão negro, mas nosso herói já estava na própria forma de cão, de forma que digladiaram-se até sucumbir aquele que nascera da barriga aberta. Era a vez da águia negra, que não teve chances contra o filho dos deuses, o escrito nas estrelas, o sortudo Joanorzim-águia, que pegou o ovo que saiu do cadáver e deu-o à donzela prisioneira.
É agora que a vingança ressentida acontece, a princesa, cansada daqueles anos de odiosos ais-bela-minha-querida, adentra o quarto de Corpo-(quase não mais)Sem-Alma com uma tigela de sopa.
-Eu sei que está se sentindo mal, ó grande mago, trouxe essa sopa para que se sinta mais forte. Tome e Ah! Espere, deixe cá eu colocar esse ovo dentro pra ficar mais substancioso e
É. A donzela amargurada quebra o ovo na testa do velho. O final já se sabe, a alma volta ao esqueleto, a idade pesa e o cadáver se cria. Joarnozim volta e como bobeira é pouco, se casa com a bela ex-prisioneira-de-mago.



Fico imaginando quantos sentem a mesma coisa que eu diante de certas histórias (tão antigas-sempre novas) naquele formato guerreiro valente e virtuoso que cresce ao longo da narrativa passando por pequenas provas, até que se encontra na missão de sua vida. Ás vezes apanha um pouco, às vezes não (como Joanozim), mas sempre é bem sucedido e recompensado: seja na forma de mulheres ou bom casamento com a filha de um herdeiro, seja na forma de riqueza espiritual como Galaaz e a morte que é a salvação. Ou até mesmo Buda que atinge o Nirvana, Cristo, Naruto e outros personagens superfaturados que de tantas missões, confundem o esquema.
Isso sem tocar no ponto arqui-inimigo. Quando a história é boa, esse é abstrato, podendo ser um alter-ego, uma fraqueza, uma mágoa ou a loucura - como de praxe nos contos orientais. O modelo mais batido é o daquele vilão que é mau sem nenhuma razão aparente ou humanamente inteligível. É mau porque tem parte com o demo, ou porque é louco e no final acaba transpassado por uma espada ou morto pelo próprio metabolismo rebelde com tanta malvadeza.
O que nessas historias tanto nos fascina a ponto de precisarmos de histórias “idiotas” que nada dizem além de reforçar velhos preconceitos e morais, de achar divertido ler os feitos de Tristão que mais parece um Jet Li roceiro usando tripas da mãe para laçar o filho boi?

Essas perguntas me vieram à mente depois de ler o conto Corpo-Sem-Alma, incluso em um livro de fábulas com o qual presenteei alguém querido. Só tinha lido o posfácio antes de comprar, achando divertida a idéia de alguém mundano ler coisas que fizeram tanto sentido para crianças de outra era, de outro condado (ahahaha). Talvez seja essa também, a minha resposta. A verdade é que abri o livro, li esse conto e primeiramente, não gostei. Não gostei de ter me sentido vazia ou “tapeada”. Mas isso é tudo uma grande bobagem, visto que tal história intrigou-me a ponto deu escrever mais de 3000 caracteres.
Com certeza lembrei-me das terríveis e necessárias palavras de Guillermo Arriaga em uma das mais fantásticas entrevistas que já vi no Roda Viva: (algo como) “quero que o leitor leia meus livros e depois se pergunte porquê o fez. É esse sentimento que quero induzir...”.
Eu sorri de raiva quando você disse isso, querido Guillermo. Não é aconselhável brincar de razões com quem precisa delas para viver, para presentear, para ler um livro, para ler um conto, uma fábula e por fim, para quem se diverte com as peripécias de Tristão, odeia o Jet Li mas simpatiza com Jackie Chan.

Abraços para o amigo que, assim como eu, se sentiu tapeado ao ler “As Aventuras de Momotaro”, jovem prodígio nascido de um pêssego gigante (Momotaro significa, aliás, filho do pêssego) que sai de casa cedo para salvar o mundo, é reconhecido como valente antes mesmo de sustentar a espada pela primeira vez, mata um par de demônios, salva donzelas e..só. É herói, lembrado, reconhecido. Pelo menos entre os meninos japoneses daquela região antes de Cristo. (Feliz aniversário, caro)



[aos mais revoltados: eu precisava contar Corpo-Sem-Alma inteiro para efeito de empatia e total inserção. Mas não pensem que não dei uma resumida onde foi possível.]

*
E para falar um pouco de hoje: revoltante os últimos dez segundos do jogo de basquete, quando o camarada bate bola durante todo aquele tempo, para “enrolar”. Já estava liquidado, mas não deixa de ser desrespeitoso. Dói ver, de fora, alguém levar uma surra. Quando se está dentro, eu sei, é gostoso demais vencer de muito, nocautear.
Mas além da bobeira humanística em relação aos jogadores porto-riquenhos, foi sofrível ver o Galvão engrandecendo o Pan, loureando os atletas; enquanto eu vejo no dia-a-dia brasileiros tão desiludidos com o curso do país, com as tragédias, com a economia, com a política. Parece que é até de propósito ver um desempenho tão bom em tempos de crises, é quase irônico. E me sinto tão conspiratória pensando em acordos, em circo, em picadeiros.
Parabéns aos batalhadores,
Mas considero encerrado o Pan (pelo menos nesse blog, até segundas ordens).

terça-feira, 24 de julho de 2007

Artigo para site

A saga da ética no fotojornalismo
Por Evandro Pimentel e Lia Segre

“O que fazer? Preciso fazer alguma coisa. Pego a câmera e me reprimo. Fazer uma foto seria o ato mais insensível que alguém poderia ter. Mas por que diabos ando sempre com uma câmera? Até quando vou à esquina comprar cigarro, levo uma comigo. Justamente porque alguma coisa sempre pode acontecer. E eu precisava fazer alguma coisa, pelo menos para acreditar que tudo não tinha sido um pesadelo”. Este trecho faz parte da entrevista que o fotógrafo e autor de As Cidades do Brasil Tuca Vieira concedeu à revista piauí em sua edição de abril desse ano, quando através de uma surpreendente narrativa pessoal descreveu sua atitude após presenciar um suicida se jogando do viaduto da Avenida Dr. Arnaldo, na capital paulista. Há fotos que são notícias inteiras por si só, mas todas elas, sejam elas ilustrativas ou informativas, passam pelo crivo da ética, que é nada mais do que o estudo, a consciência dos limites válidos, estipulada por um público ou comunidade. No caso de Tuca, a absolvição veio da boca de um bombeiro: “Fica calmo, você não poderia ter feito nada”.
Fotojornalismo é o ramo do jornalismo baseado em imagens. Ele surgiu como uma maneira de complementar as informações que antes nos eram dadas somente através de descrições. Nasceu com todo aquele mito da veracidade inquestionável: uma foto serviria para tirar possíveis dúvidas, nos isentando da responsabilidade de ter de interpretar a notícia. Os casos de manipulação ocorridos antes mesmo da popularização da fotografia jornalística já serviriam para refutar o mito. Como exemplo, o caso das fadas supostamente fotografadas, quando em 1917 duas adolescentes conseguiram enganar Sir Arthur Conan Doyle, criador de Sherlock Holmes. Até mesmo peritos da época declararam que os negativos não haviam sido alterados. Hoje, qualquer leigo percebe tratar-se de uma grosseira falsificação. Em 1902, foi fundado o movimento foto-secessão, por Alfred Stieglitz e Paul Strand, estabelecendo o direito da fotografia ser considerada uma das belas-artes Seja em casos extremos, como o da montagem das adolescentes inglesas, seja em casos mais discretos, como a escolha de um ângulo, percebeu-se que não só as fotos precisavam de interpretação, como o fotojornalismo envolvia toda uma ética a ser pensada. Mas, apesar disso, essa idéia ainda não está muito bem incorporada ao inconsciente coletivo e o mito da “verdade absoluta” sobrevive. Educar as pessoas para encarar a fotografia como uma pintura, ou seja, como uma linguagem carente de interpretação, torna-se então fundamental.
Segundo disse o estudioso e professor de fotojornalismo Boris Kossoy, em entrevista à revista História Viva, “A manipulação é inerente à construção da imagem fotográfica. A foto é sempre manipulada, posto que se trata de uma representação segundo um filtro cultural. São as interpretações culturais, estéticas/ideológicas e de outras naturezas que se acham codificadas nas imagens”. Fica assim explicitada a já citada importância da educação fotográfica: “A decifração das imagens vai além das aparências. Sua realidade interior deve ser desvendada segundo metodologias adequadas de análise e interpretação. Caso contrário, permaneceremos na superfície das imagens, iconografias ilustrativas sem densidade histórica”, completa.
Compartilhada por muitos fotógrafos, essa opinião não muda quando se fala em câmeras digitais: “Achava boba a discussão de que câmera digital permite uma manipulação melhor, mais apurada, porque a fotografia sempre existiu como instrumento político”, opina o fotojornalista João Bittar, responsável pela digitalização do arquivo da Folha de S.Paulo. “Corremos sempre o risco de sermos manipulados. No Rio, quando surgiu a discussão das digitais, reuniu-se uma assembléia que decidiu que quem fotografava de digital não era mais jornalista, sendo que preto e branco, típico do fotojornalismo, o [Sebastião] Salgado faz, e você não pode dizer que se trata da realidade. Aliás, o trabalho do Salgado é bom por causa disso: ele dá a opinião dele”, continua o fotógrafo, defendendo a parcialidade responsável dos profissionais de comunicação.
A National Press Photographers Association tem um código de ética para fotojornalistas que não condena a edição de uma imagem, “contando que a integridade da foto seja mantida”. Mas o que é integridade de conteúdo e contexto? Se houver uma superexposição, o fotógrafo pode - eticamente – editar a foto para restituir a ‘integridade’ que julgou originalmente ter captado? As circunstâncias que dizem respeito à atividade discutida são sem dúvida únicas, seja pela sua contemporâneidade, seja pela sua delicadeza e importância, tanto comercial quanto cultural.
É impossível falar de ética sem discutir limites: quanto vale uma boa foto? “Não é porque você é jornalista que pode ser diferente de outro cidadão qualquer. O ofício inclui o fato de você ser um cidadão. Você deve pautar suas atitudes nesses parâmetros: da ética, da solidariedade humana, do amor ao próximo. Esses princípios são pra valer e são pra todo mundo, inclusive pra nós”, acrescenta Bittar, na entrevista que nos concedeu.
A discussão da ética no fotojornalismo ganhou maior força em 1993, quando o fotógrafo sul-africano Kevin Carter fotografou um abutre observando e aguardando a morte de uma criança sudanesa subnutrida que definhava na relva, e mais recentemente este ano, quando o fotógrafo Tiago Brandão, a serviço do jornal Comércio da Franca, fotografou uma mãe salvando seu filho de um afogamento. Nos dois casos, a acusação foi a de não interferência do profissional no acontecimento. Ambos os fotógrafos são criticados até hoje, mesmo com o suicídio de Carter, apenas três meses após ter recebido o prêmio Pulitzer por sua mais famosa e polêmica foto. A atitude de Carter de fazer a foto, espantar o abutre e observar a criança por horas enquanto fumava e chorava é condenada por inúmeros blogs da internet. No caso brasileiro, algumas dessas páginas chegaram a colocar a foto do filho de Brandão e questionar se o pai retrataria o próprio filho se afogando ao invés de pular para salvá-lo.
Para João Bittar, cada caso é um caso. “Julgar as pessoas por elas terem tomado uma atitude depois que tudo já aconteceu é fácil.” O fotógrafo diz ainda que, no caso de Brandão, há dois aspectos importantes de serem analisados: “Um é que tudo teve final feliz, o que ajuda muito a pensar, o outro é que era um acidente doméstico, de alcance limitado. Se ele não tivesse feito as fotos e tivesse mergulhado com a mulher [Brandão afirma não saber nadar], a gente não saberia o que teria acontecido”. As fotografias, querendo ou não, conferiram veracidade ao caso, só que acabaram ganhando uma repercussão muito maior que a esperada.
A foto seria um produto mais rápido e instintivo do que ideológico, atitude-fruto da nossa sociedade imediatista e de vigilância. Há, por exemplo, quem ache válido mostrar o rosto de uma mãe chorando a morte de um filho, mesmo que a vida dela e de sua família não melhore propriamente, como forma de alerta. “É uma violência, realmente. Você me dá uma câmera objetiva, tiro a foto de uma mãe chorando, e no dia seguinte ela está em todos os jornais, todas as páginas de internet. Mas vai que isso incomoda a população, mobiliza o governo federal... Eu acho que aí, a foto cumpriu o papel dela, o papel social de denunciar”, diz Bittar, entrando em conflito com a visão mais cética do documentarista João Moreira Salles, que acredita que o respeito aos retratados vem em primeiro lugar: “Que direito você tem de dar um close no rosto de uma mãe que chora, de registrar aquele momento que lhe é tão íntimo?”
Há infinitas posições que se pode tomar frente à ética, mas essa talvez seja uma conversa sem fim, pois a ética está atrelada ao homem e ao seu conjunto, a uma sociedade que está em constante mutação. Mas parece difícil que a conclusão de Bittar tenha algo de inválido, mesmo com essa característica: “Eu acho que para ser um bom jornalista ou fotojornalista, você precisa ser uma boa pessoa. A ética está no pacote todo”.