sábado, 7 de março de 2009

Espaço para protesto II


[Ah, comunicação]

A respeito do caso do post anterior. Ditabranda. Sabe, não me espantei com essa "mancada" da Folha. Reeditar a história, amenizar situações insuportáveis: tudo isso e mais é esperado de uma empresa de comunicação dentro do mundo atual. Primeiro, por serem empresas, elas vendem um produto privado, falam o que querem, com ou sem compromisso. Há que se ganhar dinheiro, mas a principal função ou compromisso ideológico, é manter a ordem na sociedade. A fim de que os que estão no poder possam continuar enriquecendo com a mão de obra brasileira.
Por serem empresas e não as vozes das comunidades que por aqui vivem, não publicarão o mais relevante, informações preciosas para que as medidas corretas possam ser tomadas pela população. O que entra é a distração, o bonito. Ou o maquiado, tomadas políticas e econômicas apresentadas de modo distanciadas. Ah, Brasília! O FMI, o PAC, o Celso Amorim, é tudo distante.
O jornal não se preocupa em informar a sociedade sobre como ela pode se aproximar disso tudo - de um jeito racional, não o anarquismo erroneamente corrente de todo mundo opinando sobre todas as decisões nacionais. E um jeito de aproximar as pessoas do centro seria uma cobertura dos movimentos civis. Das atitudes concretas de pessoas e grupos que querem opinar sobre as diretrizes econômicas, querem questionar as medidas políticas, ter voz em consultas abertas à população. Pessoas que querem se informar, para que haja democracia de fato.
É por isso que as empresas de comunicação (o alto escalão), preferem mostrar as celebridades. Por que no site da Folha, na página inicial, as notícias daquele mundo (distante também mas cheio de gliter e strass e coroas de flores) ficam no canto esquerdo, na parte mais alta? Acho que é conhecimento de muitos de que esse é o primeiro lugar que a totalidade olha em uma página. Não sou excessão. Mesmo sem querer, por exemplo, fiquei sabendo que Angelina Jolie esqueceu jóias em um hotel inglês. E que quando chegou em Los Angeles ligou correndo para lá e, benza Deus, eles tinham guardado os apetrechos milionários. Fim da história, boa noite.


[protesto em frente ao prédio da Folha de S.Paulo, mais aqui]

Causo pessoal sobre a "mancada" da Folha
Pra quem não me conhece pessoalmente, estudo em uma escola pública de comunicações e artes, mais exatamente no departamento de jornalismo e editoração. Bom, até em memória de professores que tiveram parentes mortos no regime tínhamos de nos juntar ao coro de protesto pela Opinião demais da conta do jornal que falamos até aqui. E por que não fazer uma intervenção na aula optativa ministrada pela tal empresa no nosso departamento? Que acontece há cinco semestres às sextas feiras nove horas da manhã? Sim, nós estudamos aqui e não vamos deixar que pensem que não estamos inconformados. Que concordamos com qualquer coisa que opinam porque queremos trabalhar lá (falo em nome de muitos, como verão a seguir). Cartaz um aqui, na entrada, dois aqui, na sala de aula. Tudo pronto. Antes das nove chegam dois jornalistas, palestrantes do dia.
"Ah, hahah, erraram, a aula de hoje não será sobre a ditabranda", comentou a editora de treinamento Ana Estela sobre um cartaz irônico que nomeava a aula. O colega dela preferiu não se manifestar à esse respeito.
Os dois deram a aula impedindo perguntas acerca do editorial, pois além de não ser o tema da aula, eles não tinham a ver com a diretoria, autora de fato. Mas quem quisesse conversar sobre a opinião pessoal deles, poderia fazer após a aula. Meus colegas que foram intervir também, tiveram que sair para trabalhar, mas eu pude aompanhar uma boa parte da palestra. Os dois foram simpáticos, e humanizar o jornal - ou quem está por trás dele - é um dos objetivos da matéria na escola. Vide o trabalho final: por meio do manual de redação mais aulas, ter idéia do que a Folha considera u jornal perfeito. A partir daí analizar alguma notícia e perceber os pontos que vão contra as idéias da empresa. A última parte é a conversa com o autor da notícia escolhida, para que ele se "explique".
Oras. Isso provará ao aluno a boa vontade tanto do jornal quanto do profissional por trás. Humaniza-se os problemas, e o problema começa a ser melhor. É claro que isso é interessante, que os jornais são feitos de gente também. Mas perdem-se os detalhes (não seria ruim se sempre fossem detalhes, pequenos). O profissional tem razão de achar que, sair no jornal do dia seguinte que caiu uma ponte não sei onde é informação relevante e que isso dará poder de escolha aos que vão viajar por aquele trecho por exemplo.
Mas e o resto que não foi publicado? E quem não tem dinheiro pra comprar o jornal e acabou indo por aquela estrada? E agora, o que tem a ver com o mote do post, porque diabos Hugo Chavez no editorial?



O referendo na Venezuela, ok. NÃO! NÃO apenas isso. Fala-se de Chavez o tempo todo. De Ronaldo também, e isso especificamente me deixa louca. Isso é um recorte ideológico, ele (o presidente) não sai muito na mídia porque é mais importante do que outras coisas que acontecem no mundo. Isso pra mim é distração, é destoação de foco, é desinformação, impedimento à outras informações. Além desse recorte de assunto, que é um detalhe que acaba distraindo os jornalistas, o detalhe do preço do jornal também diz muito. Essas coisas fazem parecer que o sagrado jornal diário é quase um produto lúdico para os clientes. O ganha pão dos donos, além do reconhecimento pelo serviço público, nessas terras de condecorar quem realmente fez algo bom, muito bom. E finalmente uma peça do quebra cabeça mundo, que as pessoas continuam a montar despropositadamente.
É o que tenho a dizer dos presentes na aula que rechaçaram a manifestação. Ainda bem que não foram todos. São alunos que querem trabalhar nos mesmos meios e fazer as mesmas coisas que há tempos se fazem. Querem continuar repetindo o presente, alimentando essa coisa toda. Ou algum deles acha que vai mudar alguma coisa seguindo os passos em caminhos já construídos? Qualquer pensamento de mudar a sociedade dentro das instituições rígidas é piada.

*

nota, direito à educação
Ana Estela pediu para que eu e meus colegas nos retirássemos da sala de aula, por não estarmos matriculados na optativa. Só que na USP você não precisa estar matriculado para assistir à alguma aula (se ela não for laboratorial e necessitar aparelhagem ou algo do gênero) ou ter acesso às informações. Existe a opção de aluno ouvinte até. Minha colega explicou que o espaço era público, e ficou tudo bem. Mas os matriculados, que mandassem um e-mail para ela a fim de terem a programação das aulas e acesso ao banco de dados da Folha. Oras, isso não seria o equivalente à bibliografia? Não pode qualquer um ter acesso à essas informações?

*

nota, direito à comunicação

"Você sabia que canais de televisão e rádios são concessões públicas? Você sabia que 9 famílias controlam 85% da informação que circula nos meios de comunicação de massa? Você sabia que a Constituição Federal afirma que, no Brasil, deve haver um sistema público de comunicação? Você sabia que iniciativas legítimas de comunicação comunitária são fortemente reprimidas por conta dos interesses das empresas comerciais?"
intervozes.org.br

Rádio muda é destruída por PFs
http://muda.radiolivre.org/
Uma rádio comunitária que funcionava no Campus da Unicamp é destruída por ordem judicial, por se tratar de uma rádio pirata.
"Qual é o papel da radiodifusão hoje?
As rádios comerciais, consideradas legais, integram o território nacional a partir de interesses comerciais e culturais homogeneizantes. As rádios livres, consideradas ilegais, permitem que a pluralidade cultural seja livremente expressa. Tudo aquilo que não encontra espaço na lucrativa e monopolizada mídia comercial tem a possibilidade de vazão nos meios geridos pela própria população.
Mundialmente a mídia é controlada por 10 conglomerados. 40 empresas estão ligadas direta ou indiretamente a eles. No Brasil, 90% da mídia é controlada por 13 famílias. Em Campinas, a RAC (Rede Anhanguera de Comunicação) controla os principais meios de comunicação da cidade e região.
Centenas de rádios não comerciais espalhadas pelo Brasil e pelo mundo atuam no sentido contrário a essa situação de monopólio, reafirmando a capacidade de toda e qualquer pessoa de produzir informação", trecho do manifesto.

sábado, 28 de fevereiro de 2009

Espaço para protesto

A última polêmica envolvendo a Folha de S.Paulo, foi um editorial que criticava Chavez, e continha a palavra ditabranda, classificando o governo militar comparativamente à outros governos totalitários do mundo. Claro que houve [felizmente] milhões de protestos, e aqui abro espaço para um história que já tinha ouvido na minha disciplina de faculdade, História do jornalismo. Para os colegas que quiserem se informar sobre um causo da imprensa na época.
As cartas abaixo, que recebi por e-mail, foram enviadas ao jornal por Ivan Seixas, um dos cidadãos torturados no período.

POR QUE A FOLHA NÃO PUBLICA CARTAS DE IVAN SEIXAS?
VEJA O QUE ELE CONTA SOBRE A “DITABRANDA”

quinta-feira, 26 de fevereiro de 2009 às 14:15

Ivan Seixas tinha 16 anos quando foi preso pela ditadura, ao lado do pai, Joaquim Alencar de Seixas. No dia 16 de abril de 1971, os dois foram levados para o DOI-CODI/OBAN, em São Paulo, e barbaramente torturados.

Ivan ficou indignado quando leu o editorial da “Folha de S. Paulo”, definindo a ditadura brasileira como “ditabranda”. Falei há pouco com ele por telefone: “É muita arrogância dos Frias, ainda mais com os pés de barro que eles têm. Os Frias não têm direito de pontificar sobre a ditadura, até porque colaboraram com a ditadura”.


Ivan foi torturado pelo regime que tinha (e tem) apoio do jornal de Otavinho

Ivan Seixas mandou duas cartas para a Redação da “Folha”, protestando. Nenhuma das duas foi publicada. Escreveu, também, para o Ombudsman. Nada.

Nesta última, fez referência ao passado nebuloso do grupo “Folha”, jornal que “empregava carros para nos capturar e entregar para sessões de interrogatórios, como sofremos eu e meu pai. Ninguém me contou, eu vi carro da “Folha” na porta da OBAN/DOI-CODI.”

Ivan sabe do que está falando quando diz que a “Folha” tem pés de barro nesse tema.

Na madrugada do dia 17 de abril de 1971, poucas horas após a prisão dele e do pai, policiais a serviço da “ditabranda” tiraram Ivan da prisão para um “passeio” por São Paulo. Tomaram o caminho do Parque do Estado, uma área de mata fechada, próxima ao Jardim Zoológico. Lá, o jovem (algemado e desarmado) foi ameaçado várias vezes de fuzilamento. Os policiais - polidos como só acontecia na “ditabranda” brasileira - dispararam várias vezes bem ao lado da cabeça de Ivan. Ele fechava os olhos e tinha certeza que morreria: tortura terrível. Mas, deixaram-no vivo, pra contar a história.

No caminho para o Parque do Estado, os funcionários da “ditabranda” pararam numa padaria, na antiga Estrada do Cursino. Desceram pra tomar café, deixando Ivan no “chiqueirinho” da viatura. Foi de lá que Ivan conseguiu observar a manchete da “Folha da Tarde” (jornal do grupo Frias), estampada na banca bem ao lado da padaria: o jornal anunciava a morte do pai dele, Joaquim.

Prestem bem atenção: a “Folha da Tarde” do dia 17 trazia manchete com a morte de Joaquim – que teria ocorrido dia 16. Só que, ao voltar de seu “passeio” com os policiais, Ivan encontrou o pai vivo e consciente, nas dependências do DOI-CODI. Joaquim só morreria – sob tortura – no próprio dia 17


Joaquim Seixas, morto e torturado: vejam como era branda a ditadura apoiada pelos Frias

Ou seja, o jornal da família Frias já sabia que Joaquim estava marcado pra morrer, e “adiantou” a notícia em um dia. Detalhe banal.

A historiadora Beatriz Kushnir publicou um livro em que conta essa e outras histórias mostrando os vínculos estreitos da família Frias com a ditadura. http://www.viomundo.com.br/opiniao/unidade-caes-de-guarda-fala-da-midia-e-de-jornalistas-que-colaboraram-com-a-ditadura-militar/

Ivan está se movimentando para que o livro de Beatriz seja relançado este ano, em São Paulo. O ato serviria também como desagravo às vítimas da ditadura, e como protesto contra a família Frias, que quer reescrever a história recente do Brasil.

O velho Frias, antes de ter jornal, se dedicava a criar galinhas. Não tinha pretensões intelectuais.

Frias Filho – o Otavinho – acha que é um pensador. Devia criar galinhas.

Pensando bem, melhor não. Deixem os bons granjeiros fazerem o serviço deles honestamente...

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Prezado Senhor

Enviei o email abaixo e não obtive resposta. Ao contrário, vi desaparecer das páginas do seu jornal qualquer referência ao assunto DITADURA VERSUS DITABRANDA, e nem mesmo o ombusdman se dignou a me dar alguma resposta.

Com certeza não esperava que o senhor fizesse agora alguma sugestão do que os algozes da DITADURA (repito, DITADURA - para que não haja dúvidas) deveriam fazer de acordo com seu refinado gosto, ou conforme os critérios do seu infográfico que mede a intensidade de ditaduras. Para ajudar VS, visto que a foto do cadáver de meu pai não lhe pareceu suficiente para sua opinião abalizada, envio agora a de outros dois militantes políticos, igualmente assassinados por sua DITABRANDA, que nós, democratas, continuamos a chamar de DITADURA mesmo.

As três fotos são: meu pai, o mecânico Joaquim Alencar de Seixas, o arquiteto Antônio Benetazzo e o operário químico Virgílio Gomes da Silva.

Observe as fotos anexas e reflita. Apenas isso.

Em seguida, mostre aos seus pares de redação: Clóvis Rossi, Eliane Cantanhede, Kennedy Alencar, Nelson de Sá, Mônica Bergamo e Gilberto Dimenstein, entre outros. Pergunte-lhes o que têm a dizer a respeito do assunto. Depois, peça-lhes que enviem suas opiniões para o meu endereço eletrônico (...) Certamente, eles devem ter algo a acrescentar a este debate. O Fernando Barros e Silva já se manifestou. Mas foi obrigado a concordar com sua tese de retaliação e grosserias contra os professores Fábio Konder Comparato e Maria Victória de Mesquita Benevides. Provavelmente com medo de perder o emprego.Senhor, sua democracia é bem curiosa. Frente à condenação pública, suspende e proíbe o debate. Não permite que o ombusdman exerça seu papel - e este se acomoda, enquanto o senhor corta as cartas ao Painel do Leitor, tal qual a dona Solange Hernandes fazia nos áureos tempos do seu pai e do seu jornal cedido ao pessoal da OBAN-DOI/CODI. Ou seja, o senhor cuida de seus funcionários como seu pai cuidava de suas galinhas.

Como o senhor há de supor, vou enviar este email para o maior número possível de amigos. Mandarei, inclusive, para a Doutora Beatriz Kushnir, que conhece bem esse assunto.

Espero que, desta vez, o senhor tenha a dignidade de autorizar aos seus subordinados, a publicação da minha carta.

Democraticamente,

Ivan Akselrud de Seixas



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INSULTOS AOS DEMOCRATAS

Senhor editor

Vejo na página editorial da Folha loas ao bom comportamento dos ditadores brasileiros, que teriam sido até brandos com os inimigos. Vocês chegam até a cunhar o neologismo DITABRANDA para designar aquele período que todos os democratas definem como DITADURA. Hoje vi a redação insultar o professor Fábio Comparato e a Professora Maria Vitória Benevides de CÍNICOS E MENTIROSOS.

A DITABRANDA de vocês me prendeu junto com meu pai, quando eu tinha 16 anos. Nos torturaram juntos e o assassinaram no dia seguinte a noite. Naquela mesma manhã, uma nota oficial foi publicada dando conta de sua morte ao resistir à prisão, quando ele ainda estava vivo. Minha casa foi saqueada, minha mãe e irmãs foram presas e ficaram 1 ano e meio presas, sem acusação sequer. Uma dessas irmãs sofreu uma violência sexual por parte dos agentes da DITABRANDA de vocês. Eu fiquei preso por longos 6 anos.

Diante disso, convém perguntar: O que mais vocês gostariam que fizessem conosco?Para sua informação, envio foto de como ficou meu pai após a DITABRANDA tê-lo interrogado brandamente, nas palavras de vocês da redação da Folha.Saudações democráticas.

Ivan Akselrud de Seixas

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Caro Carlos Eduardo

Há um tempo atrás te escrevi para protestar contra a postura e as mentiras da Folha contra as indenizações aos ex-presos políticos e, uma segunda vez, contra o comportamento preconceituoso contra a Senadora Marina Silva.

Volto a te escrever, mas não é para protestar. Vejo na página editorial da Folha loas ao bom comportamento dos ditadores brasileiros, que foram até brandos com os inimigos. Cunham até o neologismo DITABRANDA para designar aquele período que todos os democratas definem como ditadura. Hoje vi a redação insultar o professor Comparato e a Professora Maria Vitória Benevides de CÍNICOS E MENTIROSOS.

Te escrevo para te lembrar que eu te disse que a foha tomava o perigoso rumo de defe3sa dos torturadores e de ataques às suas vitimas e você me dizia o contrário.

Vou escrever uma carta à redação, mas te coloco antes disso a mesma pergunta que farei a eles. Tenho a certeza que não publicarão o que escreverei, mas mesmo assim cumpro meu dever democrático. A pergunta é a seguinte:
A DITABRANDA de vocês me prendeu junto com meu pai, quando eu tinha 16 anos. Nos torturaram juntos e o assassinaram no dia seguinte a noite. Naquela mesma manhã, uma nota oficial foi publicada dando conta de sua morte ao resistir à prisão, quando ele ainda estava vivo. Minha casa foi saqueada, minha mãe e irmãs foram presas e ficaram 1 ano e meio presas, sem acusação sequer. Eu fiquei preso por longos 6 anos.
O que mais vocês gostariam que fizessem conosco?

Para sua informação, envio foto de como ficou meu pai após a DITABRANDA tê-lo interrogado brandamente, nas palavras da redação da Folha. Aliás, a mesma Folha que emprestava carros para nos capturar e entregar para as sessões de interrogatórios como sofremos eu e meu ´pai. Ninguém me contou, eu vi carro da Folha na porta da OBAN-DOI/CODI.

Saudações democráticas.

Ivan Seixas

quinta-feira, 26 de fevereiro de 2009

reparação

e se você escrevesse um poema fingindo ser eu
para que o mundo perdoasse minha falta nos últimos meses
(serão meses?)
ou um poema pensando em mim já vale. é pouco o material que tem alguma coisa comigo espalhada pelo mundo
em meio a quantidade pode nascer uma flor rara.

tenho tido ódio à quantidade do mundo
e um jeito covarde de fazer esse ódio é validando as diferenças que sempre senti
conforme vou reafirmando os erros dos meus mundos me afasto subindo
sempre ficando mais alta, indo pra um lugar em cima

disfarces da imbecilidade.

só queria que alguma coisa bonita saísse hoje
ou de mim ou de alguém perto
e eu tivesse aquele lampejo de esperança cotidiana

a vida correndo e eu do alto do meu apartamento
pedindo para que o universo me impressione
as pretensões e tristezas de ser autor de uma titica qualquer

segunda-feira, 2 de fevereiro de 2009

Da dor da separação

Sei lá, me arrependi de ficar com ela. Um amigo me disse essa frase e outras antes e depois que não valem a pena serem registradas aqui, aquela é suficiente para dar uma noção da amargura pós relacionamento. Ou melhor, pós decepção da pessoa que já foi querida. Isso é certamente uma coisa triste - quase escrevi umas das coisas mais tristes, mas o último livro que li foi Maus, então não me atrevo a tal. Não o aconselhei a pegar a primeira que ver pela frente, por amor às vítimas de seu ódio, que tem sentimentos e ressentimentos iguais aos dele, e nenhuma culpa. Ou devo assumir que todos os habitantes tem culpa pela convulsão emocional, pelo campo de ovos que a Terra se tornou?
Todos vivem esperando alguém para tirar da solidão, para ser amado, estar no centro das atenções da emoção de outrem. Precisamos disso não sei porque, uns mais conscientemente, outros menos. Mas é interessante pensar que talvez nem sempre tivemos essa relação com as emoções, somos influenciados por um monte de coisas que vieram antes de nós - quando nascemos ganhamos um mundo inteiro de presente, de conceitos pré estabelecidos, de relações sociais semi prontas, só precisamos nos convencer de que estavam certos ou que somos fracassados, depende da alma.
Um chefe que eu já tive comentou uma vez da diferença que percebia nas gerações. Ele acreditava que a minha era mais emocionalmente dependente que a dele. Se bem que, hoje em dia, imagino que pode ser só pose de machão independente que ele fazia (com o perdão, ex-chefe) - era um rapaz de cinquenta anos e solteiro há alguns. Por causa do computador, do fato que fomos largados em casa com aparatos eletrônicos e tivemos menos contatos humanos do que no quando dele.
Mesmo que essa idéia dele seja bobeira, que o homem sempre teve a mesma dependência em todas as épocas, acredito que somos sim influenciados pelo mundo que nos cerca, pela cultura que consumimos desde pequenos - compartilhamos um mundo diferente dos nossos pais. A visão sobre o amor é algo cambiante.




É disso que estou falando. Influenciado pelo que nos é propagado desde sempre, somos impelidos a achar o amor ideal. Por que não posso ter um final feliz como teve Sakura -ignorando os engraçadinhos que falam que dois meses depois eles se separaram- ? Nos esquecemos de que o amor de verdade se desenvolve no que não é perfeito, esquecer isso nos leva a desvalorizar quem está do nosso lado e realmente se importa conosco. Não acredito em alma gêmea, é muita ilusão pensar que há alguém certo pra gente. Nós fazemos o agora ser certo, e amamos respeitando as diferenças, os erros, as fraquezas. Ao menos buscar isso.
E quanto ao amigo magoado, se ele entendesse que as pessoas são solitárias e, de erro em erro buscam o que é bom para elas, não seria tão duro com a ex. Espero que ele tenha mais cuidado de agora em diante ao se envolver com outras garotas, para se machucar (decepcionar) menos.
Não existe fórmula.
[fim]

PS te amo, Rá (-

sexta-feira, 2 de janeiro de 2009

Senhora das Armas


Não era pra ter sido assim. Ao menos não naquela hora. Ano novo, discutia meu namorado e uma amiga engenheira (estudante), a Irma. Quando menores, influenciadas pelos mangás, brincávamos de simular eventos no futuro, e nos correspondíamos em meio a uma guerra que aconteceria em 2011. Uma longa guerra, e cada uma estaria em um local do mundo, realizando determinada atividade. De médica acabei em uma faculdade de jornalismo, e longe dos uniformes militares, passei a pensar modos de cultivar um mundo pacífico. Minha amiga também, a seu modo.

Mas nessa conversa imprevista, Irma comentou como quem nada quer seu desejo de trabalhar construindo armas. Essa declaração me impressionou, mesmo que eu já conhecesse seus pressupostos e influências, e me vi obrigada a usar toda minha força argumentativa de final de noite para convencê-la a não insistir nesse sonho. Imaginei que já estava tudo na minha manga, que daqui a poucos minutos a teria para meu lado. Afinal, tão senso comum, não, ser contra as armas? Elas não ajudam o mundo a ser um lugar melhor, mais habitável - foi assim que comecei. E continuei falando que havia muito a se fazer, importante e difícil, cujo objetivo não era destruir vidas.

É fácil entender os motivos despretensiosos de uma mulher que viu o pai crescer fazendo mísseis e ogivas, a beleza da mecânica, a eficiência, um projeto sem erros. E o principal, ela vive em paz, tentei convencê-la de que, se vivesse em uma situação de violência, talvez ela não quisesse alimentar isso. Recentemente em uma bela universidade do interior, onde ao invés de tiros de balas cortando o silêncio das suas noites, o que ela ouve é violão ao vivo na praça, algum amigo tocando.
Porém, me surpreendi com o rumo que tomou a falação, "quando digo que quero fabricar armas eu não penso em ataque, mas em proteção. Sou uma patriota além de tudo, não penso primeiro nos problemas de fora".

Não adiantava eu falar que as armas não eram usadas só para proteção, que elas eram exportadas para todos os locais onde as guerras intermináveis acontecem. Inclusive voltam para o país no comércio ilegal e vão para a mão da bandidagem. Tentei continuar no argumento de que moralmente não era razoável contribuir com isso, mas se ela não o fizesse outros iriam fazer, nunca vai acabar. Ela é do tipo que não acredita em uma melhora gradual do mundo, nem eu, infelizmente. Tento, às vezes. Diferentemente do meu namorado, que estava do meu outro lado, ajudando Irma nos argumentos. Não por que concordasse com ela, mas para testar meus limites e idéias, justo.

Ele fala uma coisa legal, que é uma certa obrigatoriedade em melhorar. Que a humanidade tem que caminhar para um quando onde todo trabalho manual e degradante é feito por robôs. Como se fosse uma espécie de jogo corrido pela tecnologia e justiça. É bonito, e gostaria de compartilhar de alguma parte desse otimismo, mas como disse antes, só às vezes.

Conforme a conversa foi ganhando comprimento, e ela jogou o argumento de que as armas sempre serão construídas, ao invés de insistir no meu ponto de vista, ou achar outro que estava guardado em alguma dobra do cérebro, desisti de defender meu ponto de vista e me juntei ao coro que questionava meus valores. Por que parecia o mais certo a se fazer, não por que eu vi de antemão que não convenceria ninguém ali - o desfecho mais razoável.

(em voz alta) Falo essas coisas com propriedade como se eu fizesse alguma coisa contra as guerras. Como se jornalismo ajudasse alguém. No fim todas as profissões não alimentam o status quo - jogou o namorado - todos só querem enriquecer e viver bem aqui. Momentâneamente não tive forças para continuar. Me lembrei dos meus próprios problemas existenciais de carreira e escolhas de vida e me calei.

Cheguei a me arrepender depois, ou me sentir pateticamente redimida quando assisti, dias depois, a ficção Diamante de Sangue. A personagem de Jennifer Connelly, jornalista investigando a verdadeira origem dos diamantes que chegavam em Londres, confessou que o que escrevia poderia não ajudar os refugiados, mesmo que emocionasse alguém nos Estados Unidos. É por isso que precisava de fatos. Para que não ficasse apenas na narrativa, mas que tal reportagem tivesse uma consequencia mais profunda, podendo incriminar alguém, ou fazer a preocupação ir além da comoção das lágrimas. Mas que se transformassem em ações maiores, políticas.

O que mais gostei no filme foi a refutação do TIA (This is Africa), extenuamente repetido pelos africanos do filme, a desculpa eterna para os problemas e violências causado por conterrâneos: "Assim como não é toda garota americana que quer um diamante quando fica noiva, não é todo africano que não se importa com seu lugar". Era algo assim. Que nem todos queriam embarcar no crime e sobreviver a QUALQUER custo.


[Tistou les pouces verts]

quarta-feira, 31 de dezembro de 2008

Gaza em chamas

Feliz ano novo.

Quem acha que a desgraça fica no Oriente Médio tem que se lembrar das enchentes de Minas Gerais, região metropolitana de BH (é aqui que eu amo). E de como prefeituras do Rio Grande do Norte deixaram centenas de produtos doados aos atingidos empoeirando em depósitos. É problema da nova administração.
O que mais é problema da nova administração?
Deveria ter um jeito deu deixar os meus para a Lia do ano que vem. Método velho, costumo deixar pepinos para a Lia do dia seguinte, e não necessariamente ela é uma versão melhorada. A mesma coisa o eu dos próximos 300 quase 400 dias. Só uma versão modorrenta, mau humorada de sono após a meia noite.
Canso rápido em festas. Quando estou em casa é pior ainda, pois me dou ao luxo de ceder aos meus apelos mais íntimos. "Deite naquele sofá. Você pode tirar as sandálias. Você está em casa, para que maquiagem?"

O que eu de agora posso fazer é um brinde, e desejar boa sorte à versão 2009, que ela venha com ânimo! E claro, paciência para descascar os abacaxis passados deixados de presente. Feliz administração nova!

domingo, 14 de dezembro de 2008

Aqui em Itaobim

Para quem não sabe, em dezembro estarei na cidade de Itaobim, em Minas Gerais. Era para eu ter escrito isso antes, já está quase no final da expedição(ficamos até quarta feira, hojeédomingo). Mas deixo aqui o endereço do blog do projeto.
Espero que ao fim desse mêsele esteja cheio de coisas!

Até aqui a experiência tem sido peculiar. Vi coisas que nunca vi, e no começo estava impossível, extremamente cansativo. Desde ontem eu não sei se peguei o ritmo ou se ficou mais tranquilo, estou até conseguindo me divertir. Pode ser uma fase que dure até meia noite, e amanhã a correria ensandecida volte.

Mais experiências depois, quero colocar muitas fotos, pois elas resumirão muitos dos meus pensamentos.
Só posso adiantar que algumas particulariudades da cidade tem me encantado. E deixo aqui uma postagem minha no blog:

Visita domiciliar, bairro São Cristovão

A primeira foi Maria, 83. O ônibus parou e fomos encaminhados até um boteco - na versão mais real que a palavra pode expressar. Um homem com olhar perdido estava sentado olhando para fora e não se abalou quase nada com a chegada de nove uniformemente encamisados. Passamos pelo balcão e entramos à direita, logo no próximo cômodo estava a primeira paciente do dia: dona Maria, em seu leito de definho.

A visão daquela figura pequenina com os braços e pernas mais finos do mundo chocaram-me, mais do que a fisioterapeuta Lílian, acredito. Ela, o que chamamos de discutidora de casos (graduados) acompanhava o grupo, e as outras sete pessoas fora eu eram todas macacas velhas no atender pacientes nas suas áreas e pretensões. A cito, pois foi a que primeiro interagiu com Maria, demonstrando muita liberdade e doçura, tratando-a como se fosse uma rainha.

A velhinha dos cabelos brancos e pontas vermelhas rapidinho se soltou, e até ria das bobeiras ditas. Não só ela, o grupo inteiro respirou aliviado com o quebra-gelo, e cada um pôde interagir com ela da melhor forma possível. Algo que me chamou a atenção na hora foi o mutismo dos alunos frente aquela figura esquálida. Nós fazemos a bandeira inteira, realizamos triagem, atendimentos, coletamos sangue... Mas naquele momento falou a experiência de uma que há muito pouco deixara de ser aluna. Mais tarde me contaria ter paixão por atender idosos, então naquela hora estava fazendo algo que lhe dava prazer, o que explica tudo.

A sua cuidadora, Carmen, não era parente. 49 anos, gentil e simples, nos repetia que a velhinha não dava por que não dava trabalho, que comia bem igual todos da casa, as mesmas coisas. E que aquele quarto era por que ela queria estar ali. Após os exames, tanto do residente Filipe (clínica geral) e das fisios, ficou claro que a mocinha não estava tão ruim assim. Por mais que não conseguisse esticar as pernas bem e elas doessem, e seu sentar era tão corcunda que a deixava com o tronco desproporcionalmente pequeno; tinha solução. Lilian diagnosticou síndrome do imobilismo.

Três ou quatro anos antes, quando ela quebrou a bacia, começou a ficar cada vez mais na cama e, sem motivos físicos, parou de andar. Passava o dia inteiro lá, só saía para ir ao banheiro (carregada por Carmen ou seu marido, devia pesar no máximo 40 kg como uma criancinha enrugada). Acho que demais problemas decorrentes da condição de parada dela não cabem aqui. Uma senhora que ficou encamada de bobeira, triste e curioso. As meninas ensinaram alguns alongamentos, orientaram alimentação e limpeza da prótese (chapa, a popular dentadura) e seguimos.

Os próximos do dia foram uma senhora de idade muito avançada e um senhor encamado. Ana nasceu em 1913, e fez questão de mostrar para todos a certidão de nascimento – plastificada. O problema dela era bem simples, mas aproveitando a visita a fisio e a nutri também fizeram recomendações. Todos se divertiram com ela pois, quase cem anos, ficava brincando de jogar as pernas pro ar quando deitada na cama, quase alcançando a cabeça.

Enquanto isso, do lado de fora de sua minúscula casa – quase da zona rural, fogão a lenha, sem geladeira e esgoto da pia que dava para a hortinha no quintal, não achei o banheiro -, Priscilla da odonto conversava com duas meninhas vizinhas que tinham chegado da escola. Por costume, a aluna pediu para ver a boca delas, e mesmo com alguns dentes de leite, uma delas tinha perdido um molar – último dente da boca das crianças. “Banguela com oito anos”, repetia Priscilla, inconformada e didática. Ensinou-as a escovar os dentes com uma dentadura falsa enorme.

O último encamado foi deliberadamente o caso mais complicado. O homem era novo, caíra do cavalo anos atrás e quebrou o fêmur. Por falta de informação, não fez fisioterapia e cicatrizou errado. Suas pernas estavam deformadas, e não seria possível recuperar com fisioterapia, como com Maria. Quando o vi achei que tratava de um caso parecido de distrofia muscular por estar parado. Pela ausência de um procedimento muito simples esse homem não podia nem sentar mais. A única coisa que podia fazer naquele quarto era ouvir rádio (não que se tivesse uma TV sua vida seria melhor).

Mas o que mais incomodou todos era o fato de viver sozinho. Sua irmã cuidava dele, mas trabalhava a maior parte do dia. Ele passava os dias sozinhos naquela casa, não conhecia nem o quintal nem a cozinha – com geladeira! - nem a sala. Pela sua condição, foi fácil entender por que não fazia questão de se alimentar mesmo com comida disponível. Seu quarto cheirava mal, pois tinha de se virar sozinho em vários aspectos. Porém, seu abandono não era o pior concretizado naquele lugar: no quintal havia vários focos de dengue, pondo em risco ele e seus vizinhos.

Priscilla foi atendê-lo mesmo achando que as outras especialidades já tinham sido bem claras no diagnóstico. Mas se surpreendeu. Além de ter uma doença na gengiva por falta de limpeza, estava com guna. Me explicou que é quando um dente apodrece, e forma uma bola de pus na gengiva, para expulsar o corpo morto. A falta de cuidado era tanta que o dente chegou a ser expelido, ou seja, explodiu a bola de pus na boca dele. Ela disse que o deve ter sentido dores terríveis. Outro aspecto da guna é a baixíssima imunidade do paciente, mas ela não achou que se tratava de um aidético.

Dos pacientes da VD, apenas o último caso era cuidado por parente – a irmã. Os outros dois recebiam auxílio dos vizinhos. Isso dificilmente aconteceria em uma cidade maior, em bairros fora da periferia e favelas. Quem recebeu orientação para os cuidados com Ana – a de quase cem anos - foi sua vizinha, Geni, de meia idade.

Quanto à risonha dona Maria, Carmem que vai fazer os exercícios de fisioterapia junto. Mas foi o marido dela quem convidou a senhora para se juntar a eles, dez anos atrás – e antes dela quebrar a bacia. Carmem contou meio cantando brincando o quanto ela era travessa antes. Tinha aparecido no bairro trazendo pela mão um ceguinho, e pedia esmola com ele nas portas. Depois, recebeu convite de uma vizinha para ajudar a arrumar a casa, e abandonou o ceguinho pra ficar com outro. Esse último foi o que faleceu quando ela se juntou aos atuais cuidadores no boteco.

[Lia C S]